:: O RINOCERONTE

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HISTÓRIA DO FAMOSO RHINOCERUS DE ALBRECHT DÜRER


Terceira edição do rhinoceros de Albrecht Dürer, editada
após a sua morte, com seis linhas de texto.

Em 1514, o soberano de Cambaia (norte da Índia), Sultão Mazafar II (1511-26), presenteou Afonso de Albuquerque, governador da India portuguesa, com um rinoceronte e um elefante. Afonso de Albuquerque enviou os animais para o rei Dom Manuel I, em Portugal. Os animais foram transportados na nau Nossa Senhora da Ajuda, junto com as cobiçadas especiarias orientais sob comando de Francisco Pereira Coutinho, chamado "O Rusticão", que viria a ser o primeiro donatário da capitania da Bahia - Brasil. O Rusticão caíra em desgraça na Índia, sendo mandado de volta para o reino. Partiu de Cambaia no mesmo ano para uma viagem de 10 meses através dos oceanos Indico e Atlântico, levando consigo seu bizarro carregamento.

 

 


Primeira edição de 1515, com cinco linhas de texto. A única realizada durante a vida de Dürer.


No dia 20 de maio de 1515, a nau chega à Lisboa. Elefantes não eram grande novidade na Europa: o próprio Dom Manuel possuía cinco e fazia-se preceder por um ao desfilar pelas ruas de Lisboa, mas a aparição de um rinoceronte em plena Lisboa causou grande espanto já que este era o primeiro exemplar da espécie a chegar vivo no continente Europeu desde o século III A.C. Em 03 de junho de 1515, domingo da Santíssima Trindade, Dom Manuel, resolveu por à prova a descrição da natural animosidade entre rinocerontes e elefantes, relatada por Plínio, o velho (A.C.77) em sua Historia Naturalis, organizando uma luta entre o recém chegado e um de seus"alifões" (como eram chamados os elefantes). Pelo que consta, o elefante deu meia volta e fugiu.



Oitava edição da matriz gravada por Dürer, em chiaroscuro, publicada em Amsterdam por Willem Janssen, no século XVII.


A notícia da chegada deste enorme animal logo produziu um forte impacto em toda a Europa: Valentine Ferdinant (Valentim Fernades Alemão, ou da Morávia (sua terra natal, hoje República Tcheca). Chegara a Lisboa em 1495 e viveria lá por 23 anos, destacando-se como editor e tradutor (de Marco Polo, por exemplo) e escrivão. Mas, acima de tudo, enviou à Alemanha "novas notícias das Índias" - como o depoimento do degredado Afonso Ribeiro, deixado no Brasil pela frota de Pedro Álvares Cabral.), um editor, tradutor e escrivão da Morávia, que vivia em Lisboa, enviou um desenho e uma carta descrevendo o célebre rinoceronte, apelidado de "Ganda", à uma mercador de Nuremberg, amigo do famoso artista alemão Albrecht Dürer (Nuremberg,1471-1528). Dürer fez um desenho (27,4x42 cm, hoje conservado no London British Museum) que, depois foi transformado na sua famosa xilogravura.

No mesmo ano "Ganda" foi enviado para Roma como presente ao Papa Leo X, que havia ficado muito admirado com o elefante Hanno, ofertado pelo rei português no ano anterior, mas, depois de uma escala em Marselha, onde o animal foi visto pelo rei e a rainha da França, o naviu naufragou e com ele o rinoceronte. Um relato atesta que a carcaça do animal foi resgatada e empalhada ao chegar à Roma. Dürer, portanto, nunca viu o rinoceronte ao vivo, mas baseou-se em informações de segunda mão, o que justifica a presença de algumas "invenções" presentes em seu desenho e exageradas ainda mais na xilogravura (por exemplo o pequeno chifre nas costas do bicho, as cerras na traseira, a proporção do corpo, as inúmeras placas presentes no pescoço e as manchas e escamas por todo a parte. Apesar disso, a xilogravura produzida é extraordinária e traduz espantosamente bem o aspecto geral do rhinoceros unicornis ou rinoceronte indiano. Curiosamente, a gravura de Dürer, que também foi usada para fazer um folheto para ser vendida nos mercados, continuou a ser utilizada como modelo para diversas ilustrações de livros de história natural até o século XIX!

 

 
Tradução do texto presente na 1ª edição de 1515 da xilogravura de Dürer:

"No dia 1º de maio de 1513 (deve ser lido 1515) foi trazido da India para Lisboa, como oferta para o grande e poderoso rei Manuel de Portugal, um animal vivo chamado rinoceronte. Sua forma é aqui representada. Ele tem a cor de uma tartaruga salpicada (homopus signatus) e é coberto por grossas escamas. É semelhante a um elefante em tamanho, mas de pernas mais curtas e é quase invunerável. Tem um forte e afiado chifre sobre o seu nariz, que ele afia nas pedras. O estupido animal é, do elefante, o inimigo mortal. O elefante tem muito medo dele pois, quando se encontram, o rinoceronte corre com a cabeça abaixada entre as pernas dianteiras do animal e rasga-lhe o estômago com seu chifre, estrangulando-o, de modo que o elefante não pode se defender. Por ser este animal tão bem armado, não há o que o elefante possa fazer contra ele. É também dito que o rinoceronte é rápido, impetuoso e astuto."

Nota: as informações contidas nos parenteses são do tradutor.

 

Fontes:

http://www.thebritishmuseum.ac.uk/compass/ixbin/goto?id=OBJ894
http://www.grupob.hpg.ig.com.br/texto17.html
http://gallery.euroweb.hu/html/d/durer/2/11/4/09rhinoc.html
http://www.getty.edu/art/exhibitions/picturing/
www.museen.nuernberg.de/english/duerer_e/pages/galerie_e.html cached
http://www.earthstation1.com/Merchant/merchant.mv?Screen=PROD&Store_Code=E&Product_
Code=TADWCACJIP&Category_Code=RM

http://www.scribbleskidsart.com/generic165.html
http://www.humi.keio.ac.jp/treasures/nature/Gesner-web/highlight/html/sai1557.html

 

 

www.artebr.com