Massas negras bem recortadas sobre o fundo branco, fissuradas por
pequenos cortes e deslizando em suave desequilíbrio. Não
se sabe se os volumes são instáveis, tombando em movimento
lento, ou se suas fissuras indicam apenas descontinuidades, que sugerem
outros planos por detrás. O que se adivinha, de maneira mais
imediata, é a referência urbana: blocos compactos, empenas
cegas; espaços densos e fraturados, vistos sempre como um inescapável
primeiro plano.Mas há outros elementos nas gravuras de Fernando
Vilela que contrariam a idéia de uma poética citadina
pura e simplesmente. Delicados veios de madeira definindo a superfície
chapada emprestam uma urdidura artesanal ao que nas cidades é
opacidade matérica. Além disso, algo como frágeis
palafitas ou cercados de ripas – marcos do exílio urbano
– parecem suportar esses imensos blocos, numa associação
de contrários insólitos que se potencializam. Essa transferência
simbólica resulta no amolecimento dos contornos, que faz com
que surja de repente uma vela negra inflada, feita de cimento, de
madeira, de pedra ou de nada. Ou talvez, o fragmento do casco de um
navio muito próximo. É disso que trata o seu trabalho:
um ir e vir entre o plano e o espaço que traduz, na leitura
das linguagens, o caráter irrepresentável das escalas.Uma
presença descomunal e oculta, levitando nas paisagens desoladas,
ou o que se avista nas cidades para-além das superfícies
de seus edifícios, e que permite perguntar: o que é
que os separa, e o que é que os sustêm?
Guilherme Wisnik
Guilherme
Wisnik é arquiteto e crítico de arquitetura da Folha
de S. Paulo.
Publicou o livro Lucio Costa pela ed. Cosac Naif em 2000
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